O Homem de Aço - A pobreza dos filmes de explosão
Tenho vontade de falar sobre um filme quando ele me desperta alguma ideia empolgante, ou quando, ao assistir, sinto alguma emoção, que pode variar do riso a elevação espiritual, passando pela raiva ou a tristeza.
Sem ter a capacidade de despertar qualquer pequena emoção, mesmo que fosse o tédio ou a revolta, sem a possibilidade de gerar em nossas mentes quaisquer ideias, mesmo as mais efêmeras e clichês, um filme não merece sequer a atenção de um crítico. Pensei muito sobre o que escreveria sobre Homem de Aço, quase não tive o que escrever.
O novo filme de Superman, dirigido por Zack Snyder, é o tipo de filme que nos deixa completamente indiferentes, é um filme tão sem emoção e tão vazio de ideias que não desperta sequer indignação por ser um filme ruim. Não diverte, não faz pensar, não entedia, não dá sono ou faz rir. É simplesmente uma montanha colossal de efeitos especiais produzidos em computador, fogos de artifício que encantam nossos olhos em mais de duas horas de projeção de imagens sucessivas de explosões, paisagens irreais, prédios caindo, carros arremessados, aviões despencando, naves horripilantes e todo tipo de coisa inteiramente produzida em CGI, acompanhadas de efeitos sonoros barulhentos e desnecessários, nos deixando mesmerizados e inertes em uma cadeira.
O cinema surgiu como uma curiosidade em shows de atrações populares, um trem era filmado vindo em direção a câmera, o povo se contorcia na cadeira, achando que o trem ia sair da tela. Mas o cinema evoluiu, passou a ser teatro filmado e em seguida ganhou elementos próprios, tornou-se arte, entretenimento sofisticado. Hoje regride.
Em Homem de Aço voltamos ao trem. A quantidade de prédios que cai em direção ao espectador é incontável. Todo o filme se baseia na manutenção artificial de nossa atenção em imagens sensacionais, porque contar uma boa história para nos entreter não importa, seria difícil e não ficaria bom no 3D, que aumenta a arrecadação.
O grande erro da produção do Homem de Aço foi a escolha do diretor. Zack Snyder vê o cinema exatamente dessa maneira, como uma porção de imagens fantásticas entremeadas de um frágil e, infelizmente, necessário, suporte de cenas narrativas dramáticas. O roteiro do filme serviu ao diretor.
Não há qualquer possibilidade de identificação com os personagens mostrados, Clark Kent, seus parentes em Kripton, seus pais adotivos na Terra, Lois Lane e os coadjuvantes não passam de enfeites na tela que murmuram poucas palavras uns aos outros com o único objetivo de abrir caminho para as cenas de explosão.
Tal pobreza conceitual torna irrelevante, por exemplo, citar as falhas de roteiro, porém vale notar a principal delas. Como Superman pode ocultar sua identidade no final do filme se, durante a narrativa inteira, todo mundo de Smallville já sabia quem ele era, e se há até uma cena em que Lois Lane é levada por policiais a casa de Martha Kent?
Intelectualmente irrelevante, um filme que não nos faz pensar sobre a natureza do herói, sem nenhuma questão discutida de forma inteligente ou minimamente coesa, poderíamos ainda esperar que Homem de Aço fosse divertido, porém não é. Sem alívio cômico ou uma mínima dose de suspense, repleto de ação gratuita, o filme fracassa.
O principal problema é o excesso de efeitos especiais e cenas de destruição. Até na morte de Jonathan Kent o diretor inseriu os seus efeitos gráficos, anulando o drama. A primeira aparição de Supermam com o uniforme (que decepção!) ficou sem graça, assim como todas as cenas em que o destaque está no personagem. Zack Snyder já tem isso como marca de seu cinema, o exagero no aspecto gráfico e a incapacidade de dirigir atores. Obrigados a contracenar quase todo o filme com telas verdes, os atores não encarnam personagem algum, o resultado é sempre pífio. Entendo que Snyder veja o cinema como uma arte de imagens espetaculares em movimento, porém, desta vez ele foi tão longe em busca de seu êxtase imagético que agiu como a mulher bonita que decide se maquiar e aplica todo seu estojo no rosto, tornando-se uma monstruosidade ridícula. O cinema de Zack Snyder é brega.
Zack Snyder tinha um tesouro nas mãos, mas sua falta de talento e visão infantil do cinema o fez desperdiçá-lo. Este seu Supermam pode até virar mais uma lucrativa trilogia, mas não será um clássico como a versão que trouxe Christopher Reeve. Ele será descartável e esquecível como todos esses filmes de explosão, porque não passam de uma sucessão de imagens pueris que suspendem nossas sensações e manietam nossa atividade intelectual, seus personagens não tem alma, seus diálogos são tem substância e sua trama não passa de um tartamudear desconexo de desculpas para a próxima explosão. Este cinema não nos traz emoções verdadeiras, ideias empolgantes. Tão frio e insípido quanto o aço, ele é consumido como a pipoca e o refrigerante, para depois ser esquecido.
Escrito por Tavares 11 Comentários































































